A Importância do Treinamento de APH em Emergências Clínicas

Alguns programas de treinamento têm prosperado e obtido reconhecimento pelo valor que emprestam à formação de profissionais da saúde e, por via de consequência, à coletividade. Esse é o caso do Pre-Hospital Trauma Life Support (PHTLS), que capacita para o atendimento ao trauma e tem sido adotado, nacional e internacionalmente, pelos serviços de atendimento pré-hospitalar.

Contudo, programas de qualificação direcionados à assistência clínica (não-traumática) no pré-hospitalar, como o Advanced Medical Life Support (AMLS), já consagrados em outros países, ainda não recebem, no território nacional, a atenção dada no exterior – mesmo que a quantidade de emergências clínicas supere significativamente o número de urgências traumáticas.

Provavelmente, isso se deve a três fatores:

  1. A formação em trauma é mais limitada na graduação acadêmica, o que gera insegurança ao profissional não habilitado;
  2. O atendimento ao trauma se reveste de temor e de peculiaridades que movem o profissional em busca de qualificação. Além disso, envolve um modelo mais específico de atendimento que inibe o indivíduo menos qualificado de atuar nessa área;
  3. É comum assumir que o atendimento clínico de urgência obedece uma lógica tradicional de atendimento – e isso gera uma sensação de conforto ao manejar estas situações, mas acaba  desconsiderando as demandas diferenciadas do atendimento clínico.

Desta forma, a qualificação para ambos os tipos de atendimento é essencial, traz muito mais benefício à sociedade e provoca maior impacto na carreira do profissional da saúde.

O mercado do atendimento de urgência é o que mais cresceu nos últimos 15 anos, graças ao investimento público feito no SAMU e em seus sucedâneos privados. Se, por um lado, isso gera oportunidades, por outro há uma enorme escassez de profissionais adequadamente capacitados e formados.

Alguns estudos nacionais ilustram bem a diferença do número de situações clínicas de emergência em relação às urgências traumáticas (causas externas). Estes estudos trazem os seguintes resultados:

Em um determinado estudo, as emergências clínicas corresponderam a 57% da demanda do SAMU, enquanto as urgências traumáticas estiveram presentes em apenas 33% dos atendimentos¹. Já em Ribeirão Preto, ao levantar os motivos das solicitações de atendimento pré-hospitalar móvel em Ribeirão Preto, constatou-se que 85% se deveram a causas clínicas².

A Tabela abaixo mostra que a maioria das ocorrências devidas a causas clínicas enquadram-se em três principais grupos: doenças do aparelho circulatório, com 23,1% (com prevalência das alterações hipertensivas); sinais, sintomas e achados anormais de exames, não classificados em outra parte (21,8%) e gravidez, parto e puerpério (13,8%)¹.

 

TABELA: Causas de atendimento pelo SAMU na cidade de Olinda

TIPOCAUSASN% GERAL
Causas ExternasAcidentes46023,52
Agressões492,51
Demais causas externas221,12
Outros1145,83
Parcial64532,98
    
Causas ClínicasDoenças do aparelho circulatório20010,22
Sintomas, sinais e exames anormais1899,66
Gravidez, parto e puerpério1196,08
Transtornos mentais e comportamentais1045,32
Demais causas clínicas25312,93
Outros24912,73
Parcial111456,95
    
RemoçõesParcial1437,31
    
Indefinidos 542,76
    
 Total1956100,00

Fonte: SAMU-192-Olinda, 2007

 

É fácil verificar que, com esta distribuição dos atendimentos, a equipe de saúde necessita estar preparada para as principais urgências clínicas que acometem áreas tão diversas e específicas como a gestação. Também não é difícil entender que, embora muito importante, o preparo para assistência ao trauma não fornece habilidades para atender a diversa gama das apresentações clínicas mais comuns.

 

Referências:

  1. Santana AP et Souza CWV. Serviço   de   Atendimento Móvel de Urgência (SAMU): análise da demanda e sua distribuição espacial em uma cidade do Nordeste brasileiro. Ver Bras Epidemiol. 2008;11(4):530-40.
  2. Fernandes RJ. Caracterização da atenção pré-hospitalar móvel da Secretaria de Saúde do município de Ribeirão Preto – SP [dissertação de mestrado]. Ribeirão Preto: Universidade de São Paulo; 2004.

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